A doação chegou a tempo.
Sobre a mesa farta de migalhas de pães dormidos do café da manhã amanhecido de muitos dias, grandes mãos engorduradas retalham peru e lombo que vieram da ajuda comunitária.
A toalha de plástico exibe frutas que, de verdade, nunca estiveram ali: uvas, melões, pêssegos, abacaxi... só bananas e laranjas, vez e outra, rolaram pela mesa, despejando suas cascas, e odores de meia putrefação, meio passadas, entrando no podre.
As mãos seguem cercando a ave e o porco, gordos, e da boca escorre sumo, escorre saliva, voam farelos e perdigotos, a família observa.
Sob a mesa o bebê de fralda imunda e calça plástica imensa, cheia, esconde o pânico no choro que engole. O pai é o pavor. Outros dois loiros irmãos, secos de carne, se encostam na parede, sentados ao chão, e o pai devora. A mãe, na cozinha, requenta um café.
Apenas o pai come-recome-come, antecipando o gutural arroto que rebaterá na caixa quase vazia de concreto, ribombando pelas paredes, o lar.
Ele é quem manda. Protege a família no braço, no trabalho; é quem come, o que cair de seu beiço vai pras crias, pra fêmea.
Natal não é data pra diferenças, rebeliões e fricotes. A data é tradição e manutenção da História. o espírito que ronda os generosos nessa época aqui nem paira.
A comida que imunda a mesa veio daquele grupo de pessoas acima da linha da miséria, aquelas que despejam dinheiro e fazem a alegria dos pobres. Os pobres, alegres porque recebem doações e passam menos fome. Os pobres que chafurdam em certa miséria calculada e cumprem seu papel, aplacando a consciência de quem ceia fartamente com a família.
Quem entrega o peru, quem libera o lombo pro pobre trabalhador – veio também presente pra cada filho, que o pai não entregou por julgar que ninguém ali merece ou sabe usar tudo aquilo; trocou no bar por três doses – quem faz a caridade e a cárie, não está aí pro que ocorre de verdade.
Sem a manjedoura, sem a entrega – nada dessa caridade de porta-retrato – não se nasce, no natal.
Quinta-feira, Dezembro 24, 2009
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Fernanda Young na Playboy!!!
Vi partes da entrevista coletiva de Fernanda Young no lançamento de sua Playboy. Pra variar, estranho.
Em alguns momentos, parecia uma palestra chata e mal-feita em faculdade de segunda classe. Em outros, não parecia nada.
Young afirmou que pretende mudar a estética do erotismo brasileiro e que não se reconhece nas mulheres que posam para revistas masculinas. Também falou da breguice de boa parte dos ensaios das revistas masculinas.
Pensemos: existem estéticas eróticas predominantes, mas não absolutas. As pessoas gostam de aparências variadas: gordinhas, magricelas, mulherão, mignon, negras, loiras, com seios fartos, com falta de seios, culotes, celulites, lisinhas, siliconadas, lipoaspiradas, com tatuagens ou não, inteligentes ou não. Outra coisa, também muito óbvia: as estéticas predominantes variam ao longo da História. uma pessoa solitária, posando para uma revista, não tem esse poder todo, não – ou Ida, Hortência, e mais algumas mulheres que não figuram no imaginário popular já o teriam feito. A verdade é que as pessoas não costumam gostar de mulheres que considerem feias, digo isso do ponto de vista puramente estético-corporal (pareço a Fernanda Young falando, perdão). Talvez, em algum momento da História Young seja considerada uma pessoa bonita. E aguardar...
Quanto à breguice, pensemos o seguinte: não deve existir chavão e cafonice maior do que posar vestida de coelhinha, como Young aparece logo na capa.
Ah, ela também falou mal das mulheres fruta e das ex-BBBs. Pensemos: elas agradam ao público em geral: são bonitas, corpulentas, bem-cuidadas, bem-talhadas. E, muitas delas, sendo limitadas do ponto de vista intelectual, falam pouco e somente sobre coisas que suas mentes alcançam. Por que Fernandinha não faz isso? Ou todo mundo acha que ela é realmente uma intelectual? Os roteiros de Os normais e Muito gelo e dois dedos d´água são exemplos de inteligência, de estética artística bem elaborada ou de qualquer coisa do gênero? Era só falar palavrão, Fernanda, que você ficaria muito à vontade.
Pra completar pensemos em mais uma coisa: Fernanda pediu que as pessoas comprassem a revista e passassem para dez pessoas; essa corrente,segundo a escritora, modelo e atriz, daria sorte. Algo como pisar na merda, manja?
Em alguns momentos, parecia uma palestra chata e mal-feita em faculdade de segunda classe. Em outros, não parecia nada.
Young afirmou que pretende mudar a estética do erotismo brasileiro e que não se reconhece nas mulheres que posam para revistas masculinas. Também falou da breguice de boa parte dos ensaios das revistas masculinas.
Pensemos: existem estéticas eróticas predominantes, mas não absolutas. As pessoas gostam de aparências variadas: gordinhas, magricelas, mulherão, mignon, negras, loiras, com seios fartos, com falta de seios, culotes, celulites, lisinhas, siliconadas, lipoaspiradas, com tatuagens ou não, inteligentes ou não. Outra coisa, também muito óbvia: as estéticas predominantes variam ao longo da História. uma pessoa solitária, posando para uma revista, não tem esse poder todo, não – ou Ida, Hortência, e mais algumas mulheres que não figuram no imaginário popular já o teriam feito. A verdade é que as pessoas não costumam gostar de mulheres que considerem feias, digo isso do ponto de vista puramente estético-corporal (pareço a Fernanda Young falando, perdão). Talvez, em algum momento da História Young seja considerada uma pessoa bonita. E aguardar...
Quanto à breguice, pensemos o seguinte: não deve existir chavão e cafonice maior do que posar vestida de coelhinha, como Young aparece logo na capa.
Ah, ela também falou mal das mulheres fruta e das ex-BBBs. Pensemos: elas agradam ao público em geral: são bonitas, corpulentas, bem-cuidadas, bem-talhadas. E, muitas delas, sendo limitadas do ponto de vista intelectual, falam pouco e somente sobre coisas que suas mentes alcançam. Por que Fernandinha não faz isso? Ou todo mundo acha que ela é realmente uma intelectual? Os roteiros de Os normais e Muito gelo e dois dedos d´água são exemplos de inteligência, de estética artística bem elaborada ou de qualquer coisa do gênero? Era só falar palavrão, Fernanda, que você ficaria muito à vontade.
Pra completar pensemos em mais uma coisa: Fernanda pediu que as pessoas comprassem a revista e passassem para dez pessoas; essa corrente,segundo a escritora, modelo e atriz, daria sorte. Algo como pisar na merda, manja?
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Entranhado
Tatuaram-se em mim tuas pegadas
Por onde fores, sempre estarei em tua direção
Tatuou-se em mim tua língua
Minhas palavras, por mais que voem
Ouvirão de leve teu sussurro
Tatuou-se em ti meu olhar
O que vires terá um pedaço de minhas lentes
Tatuaram-se em mim os teus seios
O que me alimentar, será um pouco do teu leite
Tatuou-se em nós a felicidade
Em vários caminhos por que andemos
Seremos outros, teremos outros
Mas sempre os mesmos.
Por onde fores, sempre estarei em tua direção
Tatuou-se em mim tua língua
Minhas palavras, por mais que voem
Ouvirão de leve teu sussurro
Tatuou-se em ti meu olhar
O que vires terá um pedaço de minhas lentes
Tatuaram-se em mim os teus seios
O que me alimentar, será um pouco do teu leite
Tatuou-se em nós a felicidade
Em vários caminhos por que andemos
Seremos outros, teremos outros
Mas sempre os mesmos.
Domingo, Novembro 01, 2009
Linchamento Acadêmico
Geisy é uma jovem de vinte anos, bonita, atraente e certamente cobiçada por muitos homens de idades, grau de escolaridade e credos variados. Ela é estudante de Turismo na UNIBAN ABC. Geisy quase foi linchada e estuprada pelos colegas num dia em que resolveu ir cm um vestido talvez pouco apropriado para a ocasião.
Pode-se discutir a pertinência de certos tipos de roupa em universidades, mas cada vez mais essa discussão perde o sentido, pois é muito comum ver homens e mulheres usando bermudas, roupas decotadas e curtas. Pode-se discutir moralismos pautados em opções religiosas e individuais – homens e mulheres podem julgar determinados tipos de roupas contraditórios com sua fé pessoal – eu mesmo tenho e já tive colegas que usam véus e roupas que cobrem todo o corpo na universidade em que estudo. O que não se pode questionar é o respeito o ser humano, independente da roupa que ele esteja usando.
Alegou-se que Geisy estava gostando do alvoroço que causou entre os colegas e que os estimulou levantando a já curta barra do vestido, que os seguranças deveriam tê-la barrado já na entrada – embora outras garotas e a própria Geisy já tivesse ido à aula com roupas do mesmo padrão – e um professor da UNIBAN, que sequer viu a jovem, é da opinião de que a garota estava vestida muito mal e que a culpa do tumulto é exclusivamente da jovem.
O caso é nojento. O comportamento animalesco dos “universitários”, certamente ocorreu porque os jovens, preconceituosos, que se achavam no direito de humilhar, ameaçar e perseguir uma jovem por ser ela bonita e estar vestida de modo sensual, julgam a si mesmo superiores à normas, contratos sociais e à própria jovem; afinal, a jovem, “que se vestia como garota de programa” – opinião com a qual não partilho – dava o direito a cerca de 700 jovens de até mesmo estuprá-la, como alguns chegaram a sugerir. Além da falta de respeito às mínimas regras de convivência, aqueles “estudantes” contavam com a impunidade – que certamente virá, pois em algumas semanas todo mundo vai esquecer o que aconteceu e a universidade não pensa em perder 700 pagantes, certamente muitos deles com a receita garantida, bancados pelo PRO-Uni.
O que pode servir de conforto para a sociedade – seriam esses jovens os futuros governantes do Brasil e estaríamos condenados a uma volta ao feudalismo? – é que a maioria absolutíssima daqueles pequenos monstros não chegará a grandes feitos acadêmicos e profissionais, acredite. Apenas um ou outro daqueles canibais ascenderá e terá alguma influência no destino do nosso país.
Agora, o que é triste mesmo é que fatos como esses nos deem a certeza do que algo no meio acadêmico, ainda mais nessas “universidades” sem projeto pedagógico consistente, ocupadas que são em aumentar o número de clientes se ma menor preocupação em aumentar a qualidade de seus cursos, algo vai de péssimo a horripilante. Quem não aprende a respeitar o próximo e consegue, sem o menor remorso, se colocar a cima dele não aprendeu absolutamente nada de útil para si mesmo ou para a sociedade.
Pode-se discutir a pertinência de certos tipos de roupa em universidades, mas cada vez mais essa discussão perde o sentido, pois é muito comum ver homens e mulheres usando bermudas, roupas decotadas e curtas. Pode-se discutir moralismos pautados em opções religiosas e individuais – homens e mulheres podem julgar determinados tipos de roupas contraditórios com sua fé pessoal – eu mesmo tenho e já tive colegas que usam véus e roupas que cobrem todo o corpo na universidade em que estudo. O que não se pode questionar é o respeito o ser humano, independente da roupa que ele esteja usando.
Alegou-se que Geisy estava gostando do alvoroço que causou entre os colegas e que os estimulou levantando a já curta barra do vestido, que os seguranças deveriam tê-la barrado já na entrada – embora outras garotas e a própria Geisy já tivesse ido à aula com roupas do mesmo padrão – e um professor da UNIBAN, que sequer viu a jovem, é da opinião de que a garota estava vestida muito mal e que a culpa do tumulto é exclusivamente da jovem.
O caso é nojento. O comportamento animalesco dos “universitários”, certamente ocorreu porque os jovens, preconceituosos, que se achavam no direito de humilhar, ameaçar e perseguir uma jovem por ser ela bonita e estar vestida de modo sensual, julgam a si mesmo superiores à normas, contratos sociais e à própria jovem; afinal, a jovem, “que se vestia como garota de programa” – opinião com a qual não partilho – dava o direito a cerca de 700 jovens de até mesmo estuprá-la, como alguns chegaram a sugerir. Além da falta de respeito às mínimas regras de convivência, aqueles “estudantes” contavam com a impunidade – que certamente virá, pois em algumas semanas todo mundo vai esquecer o que aconteceu e a universidade não pensa em perder 700 pagantes, certamente muitos deles com a receita garantida, bancados pelo PRO-Uni.
O que pode servir de conforto para a sociedade – seriam esses jovens os futuros governantes do Brasil e estaríamos condenados a uma volta ao feudalismo? – é que a maioria absolutíssima daqueles pequenos monstros não chegará a grandes feitos acadêmicos e profissionais, acredite. Apenas um ou outro daqueles canibais ascenderá e terá alguma influência no destino do nosso país.
Agora, o que é triste mesmo é que fatos como esses nos deem a certeza do que algo no meio acadêmico, ainda mais nessas “universidades” sem projeto pedagógico consistente, ocupadas que são em aumentar o número de clientes se ma menor preocupação em aumentar a qualidade de seus cursos, algo vai de péssimo a horripilante. Quem não aprende a respeitar o próximo e consegue, sem o menor remorso, se colocar a cima dele não aprendeu absolutamente nada de útil para si mesmo ou para a sociedade.
Domingo, Outubro 25, 2009
Infância enraizada em Manoel de Barros
Descendo a ladeira de asfalto amargo
O menino puxa uma linha preta
Presa a uma lata
Derramando flores, estrelas, doce
Atraindo fadas
Bordando em cada poste mil beijos da cor do sol
Desfraldando em cada cabo
Dúzias de bandeirolas celestes
Convidando sereias e santos
Para a sua festa
O menino não sonha, planta
O menino das mãos de homem
O menino dá a mão aos anjos.
O menino puxa uma linha preta
Presa a uma lata
Derramando flores, estrelas, doce
Atraindo fadas
Bordando em cada poste mil beijos da cor do sol
Desfraldando em cada cabo
Dúzias de bandeirolas celestes
Convidando sereias e santos
Para a sua festa
O menino não sonha, planta
O menino das mãos de homem
O menino dá a mão aos anjos.
Terça-feira, Outubro 20, 2009
não estou com tempo de escrever muito para o blog, o que me é triste. concurso, cursos, trabalho novo, questões pessoais, projetos literários que andam e desandam, buscando sentido pra vida, uma ou outra doença, tristeza, issos e aquilos.
mas, como a palavra queima na palma da mão, estou no twitter, com considerável frequência, diária, pelo menos. me vejam por lá!
www.twitter.com/pborgesj
abraços!
mas, como a palavra queima na palma da mão, estou no twitter, com considerável frequência, diária, pelo menos. me vejam por lá!
www.twitter.com/pborgesj
abraços!
Segunda-feira, Setembro 28, 2009
O Anticristo de Lars von Trier
Começo sem suspense: o novo filme do diretor de Dogville e Manderlay é, sim, chato. Mas é preciso dizer que coisas chatas também podem perturbar – uma das funções da arte.
O Anticristo é um filme grotesco: faz o sexo e o amor parecerem coisas horrendas, tem um ritmo irritantemente lento que nos incomoda desde a primeira sequência; até uma tomada de sexo explícito rola. Se a intenção do diretor é atormentar seus espectadores, não tenham dúvida de que ele Lars von Trier alcança extremo êxito.
Enquanto assistia ao filme ficava pensando o tempo todo o que leva os atores a participar de um filme como aquele: será que o roteiro sugeria outro tipo de coisa? Estavam precisando desesperadamente de dinheiro? Viam na história e no prestígio de trabalhar cm um dos diretores “cabeça” mais aclamados do mundo uma possibilidade de participar de uma obra de “vanguarda”? o que se passa pela cabeça do próprio diretor, honestamente, me intriga menos, pois todo artista sempre consegue ver sentido e “função” em sua obra; aliás, de vez em quando apenas o próprio autor consegue ver algo que justifique seu trabalho.
Mas imagino que O Anticristo tenha saído do jeito que seu diretor desejava, ou ao menos muito próximo disso. O trabalho de fotografia é simplesmente deslumbrante, e é responsável por alguns momentos em que a plateia se vê lançada para fora da poltrona e tem suas emoções realmente reviradas – mas as cenas escatológicas, que misturam sexo e violência de um modo realmente insano, é que ficam em nossa memória por mais tempo; ao menos ficaram na minha.
O Anticristo, que não relação alguma com Nietzsche, Marilyn Manson, leituras equivocadas do Apocalipse e que dispensa até mesmo o próprio satanás não é um filme que eu recomendaria a ninguém, mas estou escrevendo, sem obrigação alguma, sobre ele; algum significado isso deve ter...
O Anticristo é um filme grotesco: faz o sexo e o amor parecerem coisas horrendas, tem um ritmo irritantemente lento que nos incomoda desde a primeira sequência; até uma tomada de sexo explícito rola. Se a intenção do diretor é atormentar seus espectadores, não tenham dúvida de que ele Lars von Trier alcança extremo êxito.
Enquanto assistia ao filme ficava pensando o tempo todo o que leva os atores a participar de um filme como aquele: será que o roteiro sugeria outro tipo de coisa? Estavam precisando desesperadamente de dinheiro? Viam na história e no prestígio de trabalhar cm um dos diretores “cabeça” mais aclamados do mundo uma possibilidade de participar de uma obra de “vanguarda”? o que se passa pela cabeça do próprio diretor, honestamente, me intriga menos, pois todo artista sempre consegue ver sentido e “função” em sua obra; aliás, de vez em quando apenas o próprio autor consegue ver algo que justifique seu trabalho.
Mas imagino que O Anticristo tenha saído do jeito que seu diretor desejava, ou ao menos muito próximo disso. O trabalho de fotografia é simplesmente deslumbrante, e é responsável por alguns momentos em que a plateia se vê lançada para fora da poltrona e tem suas emoções realmente reviradas – mas as cenas escatológicas, que misturam sexo e violência de um modo realmente insano, é que ficam em nossa memória por mais tempo; ao menos ficaram na minha.
O Anticristo, que não relação alguma com Nietzsche, Marilyn Manson, leituras equivocadas do Apocalipse e que dispensa até mesmo o próprio satanás não é um filme que eu recomendaria a ninguém, mas estou escrevendo, sem obrigação alguma, sobre ele; algum significado isso deve ter...
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